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Crie um produto que as pessoas amem

Escrevo esse texto depois de por várias vezes ter tido problemas com o app da Rappi e mesmo assim continuar tentando usar. Eles resolvem um problema tão real que eu, como usuário, consigo não ligar para alguns bugs e mal funcionamento, justamente porque quero muito o serviço que tem ali. Com certeza essa é a primeira coisa pra se prestar atenção quando se vai criar algo que as pessoas amam.

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Usuários que amam um produto se tornam evangelistas dele.

Quando em 2014 passei uns meses no Vale do Silício, eu ouvi essa frase algumas milhares de vezes. Toda startup ou “empresa caloura” como diz um amigo meu, está ou deveria estar em busca da construção de um produto que o usuário AME. Não é um produto que o usuário goste, nem um produto que o usuário use com frequência, mas sim: um produto que as pessoas amam.

Já pensou como é difícil AMAR um produto ou uma empresa? Para isso essa empresa realmente precisa estar resolvendo um problema de verdade. Uma dor daquelas que realmente incomodam. Veja que essa é a parte mais importante: enxergar justamente onde você pode mudar a vida/rotina de alguém. Encontrar essa dor é mais importante que as ferramentas que você usou, que o produto “acabado” ou que o tamanho do seu mercado.

Você conhece algum produto assim? Perguntei para pessoas próximas quais sites ou apps elas amam e as respostas foram essas: Waze, Strava, iFood, Inbox (que inclusive será descontinuado pelo Google) e muitos outros, sem contar os clássicos como o iPhone, iPod, Steam, etc… Pode ser que para você não seja nenhum desses, mas com certeza existe algum aplicativo, ou outro tipo de serviço/produto que você AMA.

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Filas de pessoas para comprar um novo iPhone

Encontrando um problema para resolver

Sempre que você se depara com uma dificuldade você está diante de um problema que você pode resolver. A questão é se ele vale a pena ser resolvido. Você pode achar que vale a pena criar mais uma marca de surf e que as que existem são poucas; ou você pode descobrir que bancos são irritantes para pessoas jovens e tentar construir um banco que atenda essas pessoas.

Além desses problemas em um nível macro, você encontrará muitos outros menores que ainda não estão bem resolvidos. Pode ser que na empresa que você trabalha existe um processo manual que poderia ser automatizado. Por quê não pensar nisso como um problema a ser resolvido? Talvez você possa automatizar isso para várias empresas e passar de funcionário para fornecedor. Coisas como essa acontecem bastante e muita empresa de sucesso foi criada assim, aproveitando um problema que precisava ser resolvido para outra empresa, mas que não era o core do negócio.

Resolvendo o problema

Independente do problema que você encontrou, a primeira coisa que você vai fazer é se tornar um especialista naquele assunto. Consuma o máximo de conteúdo que puder sobre aquilo, leia livros, assista vídeos, vá em eventos e aprenda sobre o problema que você encontrou. É realmente, um problema? Existe para mais alguém? Não é só algo da sua cabeça? Muitas vezes ficamos tão obcecados com nossas próprias ideias que não conseguimos apreender sobre o mundo ao nosso redor. Não fique fechado em seu casulo, converse com outras pessoas, pense se vale a pena investir nessa solução. Se você chegou a conclusão de que é necessário resolver aquele problema então chegou a hora de trabalhar em cima do seu primeiro protótipo: o produto mínimo viável.

Criando um MVP para validar uma hipótese

MVP é uma sigla muito famosa e pouco entendida. É o Minimum Viable Product ou Produto Mínimo Viável, em português. O MVP é um protótipo. É um experimento para testar uma hipótese. O mais importante nesse passo não é o MVP em si, mas sim o teste da hipótese.

A primeira coisa a se fazer é criar uma hipótese. Vamos imaginar como poderia ter sido a hipótese da NetFlix, no final dos anos 90. O cenário era de pessoas que se locomoviam até grandes locadoras para escolher filmes e depois de um ou dois dias, deveriam voltar na locadora para devolver o filme assistido. Imagine que a NetFlix achava um porre ter que sair de casa para alugar e ter que ir depois para devolver. Caso não devolvesse no prazo, as locadoras cobravam uma multa. Então, suponhamos, que a NetFlix montou a seguinte hipótese: “Já que nós acreditamos que as pessoas não querem ir até uma locadora, se oferecermos um aluguel de filmes em casa, elas vão usar o nosso serviço”.

Agora, com a hipótese em mãos, vem o MVP da Netflix. Para testar essa hipótese foi criado um catálogo de DVDs que eram entregados pelo correio. Você recebia o catálogo, pedia o filme por telefone e alguém entregava e depois vinha retirar o filme. Simples assim.

Veja, o MVP foi suficiente para testar a hipótese e para fazer o mais importante: Colocar a empresa em contato com os early-adopters, ou seja, os primeiros usuários. As pessoas que tem aquela dor latente de querer ter aquele problema resolvido e não ligam se seu serviço apresenta algumas falhas no começo, contanto que você esteja resolvendo o problema delas.

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Exemplo de construção de um MVP, entregando valor para o cliente em cada iteração

Ouvindo os clientes para começar tudo de novo

A construção do MVP abre o contato entre sua empresa e seus clientes e essa é a parte mais importante para construir um produto que as pessoas amam. Primeiro, você precisa se despir do que você acha que sabe sobre o mercado ou sobre seus clientes. Você precisa escutá-los atentamente e observar como esses clientes usam e se relacionam com seu produto/serviço.

Esse é o momento de entender o que realmente importa para os usuários. Como você pode economizar ou criar tempo, dinheiro e recursos para eles. Como o usuário tem resolvido aquele problema sem a solução que você está oferecendo. Você melhora ou piora o processo dele? Ele está disposto a pagar por essa solução ou quando está de frente com um boleto acredita que aquele problema não era tão grande assim?

Repetindo o processo

Tanto faz se sua hipótese foi validada ou não. Em qualquer um dos casos você vai ter aprendido coisas novas nesse processo. Aprendido sobre seus usuários, sobre o mercado, sobre o seu próprio produto. Então é hora de partir para uma nova hipótese. Trabalhe em um novo MVP e parta para um novo ciclo.

Cada vez que você completar o ciclo você está iterando sobre ele, ou seja, você está utilizando todo o feedback que recebeu dos usuários e colocando como insumo sobre o mesmo processo de desenvolvimento do produto. Esse processo, segundo os princípios de Lean Startup (Startup Enxuta) é o Build-Measure-Learn (Construir-Medir-Aprender).

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Ciclo Build-Measure-Learn (Construir, Medir, Aprender)

O processo de construir, medir e aprender é o que vai garantir que você esteja construindo algo que as pessoas amem. Não é o seu instinto, não é o que você acha e não é o quanto você cobra. O processo vai garantir que a cada novo passo na construção do seu produto você esteja avançando na direção certa, na direção que traz mais resultado para os seus clientes.

Exercitando o método

Todo esse processo da Startup Enxuta se assemelha a um método científico. Você tem suas suposições e cria experimentos para testá-las. De acordo com o que você aprendeu com esses experimentos você confirma ou muda suas ideias iniciais, sem crise e sem dogmas.

Um exercício interessante para quem quer empreender é tomar nota de coisas que você vê no seu dia a dia sobre problemas e soluções existentes. Tente responder as seguintes perguntas no seu dia a dia:

Para conhecer outros produtos:

  • Qual problema esse produto/serviço resolve? Como isso era resolvido antes? A solução proposta é melhor e mais confiável que a anterior?
  • Quais produtos eu sou um early-adopter, uso mesmo que eles não estejam 100% prontos e apresentem problemas de vez em quando?
  • Quais novos lançamentos eu presenciei em serviços/produtos que trouxeram novos benefícios para mim e outros usuários?

Para treinar com as suas ideias:

  • Qual problema eu estou enfrentando que não tem uma solução boa e confiável o bastante?
  • Quem seriam os early-adopters, ou seja, pessoas que também enfrentam esse problema e estariam dispostos a testar uma nova solução?
  • Qual o MVP que eu poderia criar para ter certeza que tenho um problema real e que os early-adopters estão dispostos a usar meu MVP e pagar por ele, mesmo que incompleto?

Longe de ser um assunto novo, mas é sempre importante relembrarmos as bases. Escrevi despretensiosamente, mas gostaria de saber quais outros produtos/serviços vocês sentem que são early-adopters e usam mesmo quando enfrentam dificuldades para fazer o app funcionar?

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  1. Observação. Depois de postar esse texto fui compartilhar no Facebook. No primeiro scroll já vi reclamações sobre “Como é ruim desbloquear um cartão de crédito no caixa eletrônico” e outras… Tem um monte de problemas interessantes para resolver por aí, a gente esbarra neles o tempo todo.

  2. Eu gosto muito desse conceito todo, acho realmente produtivo.

    Infelizmente ele não é aplicado na maioria dos casos (pelo menos nas empresas que eu conheço aqui no Brasil).

    Acho que tem a ver com a cultura geral… não sei.

    Mas acredito que com o tempo as pessoas vão entender que é melhor testar a hipótese antes de ter um “super app que faz tudo”!

    • Acho que com o tempo quem faz o “super app que faz tudo” ou muda para uma forma mais inteligente de trabalhar ou vai ser engolido por quem está fazendo as coisas direito